Sexo anal, liberdade e outros que tais...
Quanto ao problema gravíssimo de saúde pública que é o sexo anal (ó meu Deus!), os riscos, conheço-os. Há muito. E depois? Não os posso correr? Temos de começar a assutar toda a gente e a obrigar toda a gente a pôr uma tatuagem no rabinho a dizer: "Sodomizar mata"?
Mas é tão giro, realmente, como certos espíritos puritanos só o são com certas coisas bem delineadas: tabaco, etc.
Seleccions catalanes! ou como se deve ser separatista e anti-nacionalista
Sempre tive tendências separatistas, como bem se sabe. Continuo a defender que, ao longo da história, o separatismo foi bem mais pacífico do que o unionismo forçado de qualquer espécie (malgré ETA e outros que tais, que são mais uma espécie de politicamente correcto violento, como tendem a ser todos os movimentos "politicamente correctos").Mas o meu separatismo não é igual aos outros. Sou pouco nacionalista, apesar de catalão. Aliás, os meus sentimentos são um pouco difusos, neste campo.
O João Miranda, há uns tempos, defendeu o "estado neutro", mesmo em relação às nações. Acho que gosto da noção, apesar das antipatias que provocou. Gostava que Espanha fosse neutra. Que deixasse que as várias "nações" ou "noções de nação" que existem por lá se libertassem dum patriotismo obrigatório. A pessoa devia poder sentir-se castelhana/espanhola, castelhana, catalã/espanhola, catalão, apátrida, portuguesa, curda, se quisesse. O estado seria neutro. Cada "nação" faria o que podia, com o suporte financeiro e humano dos seus membros, que o seriam se quisessem e quando quisessem.
Assim, poderiam surgir selecções catalãs. Selecções bascas. Selecções espanholas. Selecções de La Rioja. O que se quisesse.
O importante é a liberdade e o tremorzinho na pele a ouvir o hino, mesmo que ridículo, devia ser permitido a todos, não apenas aos que têm a nação certa em cada estado.
Os verdadeiros horrores de Portugal?
Adenda:
"Esta votação tem um carácter lúdico e não visa senão suscitar uma discussão sobre a arquitectura e a qualidade da paisagem urbana e da vida nas nossas cidades." (José Vítor Malheiros, Público)
Discutamos, pois, a arquitectura e a qualidade da paisagem.
Pergunta sincera
Até pode fazer mal...
A liberdade de cada um implica o corpo todo, incluindo vias respiratórias, reprodutórias e excretórias. É isso que importa.
Até pode fazer mal. Até me podem provar que o sexo anal provoca meio milhão de mortes por ano, só em Portugal. Se assim for, fico contente pela liberdade de costumes que por aí anda (o comportamento que mais mortes provoca por ano continua a ser "viver", tout court).
Como em tudo, a responsabilidade é de quem o faz, ponto final. Se quisermos dar mais importância à discussão do que ela tem, até podemos argumentar que o sexo, em geral, tem "alguns" perigos. Mas esses comportamentos são da (ir)responsabilidade de cada um.
O que este post quer é controlar a vidinha dos outros, quer que ninguém faça "aquilo" porque há gente que tem nojo, que não aguenta pensar que a humanidade não se rege pelos seus estritos critérios do que é bom, do que é belo, do que faz bem.
Já agora, o que é o poderoso e maléfico lobby gay defende, segundo os defensores da pureza higiénica dos rabos dos senhores e senhoras deste país? A conversão dos outros à gayice? A morte por arrebentamento das donzelas e dos donzéis portugueses?
Atentem na imagem do post anterior
Ai a Liberdade, a Liberdade
E eu, Andreu, quem serei?
A liberdade de ver, claro... De tentar, de não conseguir, de às vezes conseguir, de sonhar.
Blasfémias
Onde se come melhor? Em "Espanha", claro!

Qual é o país onde se come melhor? Em "Espanha", claro. (E perdoem-me as aspas muito nacionalistas catalãs, porque, à falta de independência do meu país, a "Espanha" de que todos falamos inclui a minha terra, e lá também se come muito bem, como todos devíamos saber.)
Reparem: não tenho qualquer simpatia especial por Espanha. Gostava até de partilhar a certeza parva de muitos portugueses de que em Espanha se come pessimamente. Mas não posso: qualquer pessoa que investigue um pouco mais para lá dos snack-bars ou estações de serviço e queira realmente ser surpreendida, sabe que em Espanha se come muito bem; que os franceses ganhariam em imitar os espanhóis; que nós, neste campeonato, nunca venceremos nem os oitavos-de-final; que Espanha, nisto, está noutra galáxia. (E olhem que eu deliro com a cozinha portuguesa. Mas uma coisa é Almada Negreiros, outra coisa é Dalí.)
Então porque há esta ideia portuguesa de que em Espanha se come mal, mesmo entre gente que já comeu muitas vezes por terras vizinhas? Pela mesma razão por que muitos estrangeiros que nos conhecem não sabem realmente ver para lá das ideias que tinham quando cá chegaram: é diferença entre confirmar e descobrir: há quem viaje para confirmar, há quem viaje para descobrir e para se esforçar um pouco para lá do óbvio.
É por isso que, em Portugal, não se conhece a melhor cozinha do mundo. Será que só cá ninguém ouviu falar de Ferran Adrià (para só falar do óbvio e já batido "melhor cozinheiro do mundo")?
O que realmente nos divide
O que realmente nos divide é outra coisa: termos o mundo arrumadinho e as certezas perfeitas ou ficarmos com a certeza muito amarga de que as certezas têm de ser provisórias para podermos ser humanos.
Aqueles que têm a certeza de que não há certezas ou verdade são do primeiro grupo, claro.
Para quê?
Mas enfim, tudo isto, no fundo, é mais liberdade, e é isso que quero.
E já agora quero ainda mais tradições cívicas, rituais mínimos mas sólidos, monarquias democráticas, pequenos gestos partilhados, nações fortes, e muita liberdade nos interstícios de tudo isto.
Ditaduras
Por outras palavras: nos regimes fascistas, prende-nos a tentativa desesperada de escapar à degradação dum Passado ideal; nos regimes comunistas, prende-nos a inescapável marcha em direcção ao Futuro que canta.
Entretanto, vamos libertando o presente, no meio das vozes que não são deste tempo.
Generalidades
Assim: disciplinas como a Filosofia são postas de parte.
Resultado: cada vez mais ficaremos extremamente bem preparados para uma função específica, mas muito pouco flexíveis, sem capacidade para resolver problemas, sem vontade de pensar, preparados apenas para cumprir tarefas.
Sintoma: licenciados no desemprego, preparadíssimos para certas coisas, incapazes para tudo o resto.
Solução: uma base sólida de formação geral e uma formação específica que não seja castradora. E, já agora, um pouco de inteligência e curiosidade da parte de cada um.
As coisas realmente boas
Mas acho também curioso e quase absurdo a forma beata e muito séria como alguns tentam impor a literatura, filosofia, &c., a todos os outros, em jeito de iluminação religiosa ou algo do género. Gostar ou não de literatura, perceber ou não de filosofia, entender ou não a importância da ciência é, acima de tudo, uma questão de liberdade.
Ainda mais curioso é a forma como os outros, os que acham "desinteressante" tudo isto, não percebem que perdem imenso e que as desvantagens são todas deles. Além disso, é pena não perceberem que a filosofia (certa filosofia, claro), por exemplo, foi uma das formas como se chegou às precárias liberdades que temos hoje. Leia-se Popper, por exemplo: está lá a liberdade, os inimigos da mesma, a ciência, a democracia, etc., etc. Mas, claro, quem gosta de filosofia, supostamente, não percebe nada do que é a vida.
Paradoxo dos paradoxos: eu, que gosto de filosofia, de literatura, de ciência, compreendo também, por causa disso mesmo, que não sou realmente melhor dos outros por causa disso. Simplesmente, a minha vida, sem isso, era outra coisa. Menos minha. Menos boa.
A dificuldade do liberalismo
Resposta: a pergunta nem se coloca! Isto e isto, apesar de disparates, são espaços de liberdade, tal como qualquer site de pornografia ou de negação do Holocausto (já agora, que raio de ideia é essa de proibir o negacionismo?
Mas, em relação a tudo isto, há que dizer que mais importante do que a liberdade deles, é a minha liberdade de dizer que são "alarvidades" (com a possível excepção da pornografia).
O meu ditador é melhor do que o teu!
Lembro-me de ler que Cardoso Pires (homem de pergaminhos indubitavelmente de esquerda) chocou alguns amigos ao assinar um abaixo-assinado contra a prisão de dissidentes soviéticos, poucos meses depois do 25 de Abril (crime de lesa-Utopia!). A resposta dele (penso que a Maria Lúcia Lepecki) foi algo do género: "mas só assim posso assinar abaixo-assinados contra o Pinochet!" Isto mostra duas coisas: é natural que os ditadores da nossa zona sejam mais simpáticos (Cardoso Pires, no fundo, assanhava-se mais facilmente contra Pinochet). Mas, acima dessa simpatia quase irracional, há que ser superior e lutar contra tudo o que vá contra a nossa terrível liberdade (Cardoso Pires sabia que a coisa era mais complexa que a simples divisão esquerda-direita).
(Cardoso Pires foi dos poucos esquerdistas que sempre foram, sem vacilar, a favor de toda e qualquer liberdade. Que pena não ser monárquico, liberal, etc., etc. Mas pelo menos era libertino dos velhos, não se levava demasiado a sério e era boa gente.)
Pergunta
Sou Separatista porque gostava de não ser Nacionalista
Pois, apesar de muitos acharem que isto mostra o ressurgir dos nacionalismos, dos sectarismos, dos ismos em geral, para mim (e esqueçam por momentos que sou catalão), é bom sinal: quanto mais separatismo, menos nacionalismo. Enquanto português (que também o sou), posso afirmar-me pouco nacionalista ou nada nacionalista e continuar a falar português, a vibrar com a Selecção Portuguesa, a cantar o hino, a defender a independência do país sem me acusarem de perigoso radical; enquanto catalão, o caso muda completamente de figura: se o quero ser (e não é uma questão de querer ser, no meu caso), tenho de ser profundamente nacionalista e, consequentemente, mal visto.
Ou seja, quero a independência da Catalunha também para não ter de estar constantemente a dizer que sou catalão. Quero a independência da Escócia, para que as tensões crescentes entre ingleses e escoceses sobre as transferências monetárias desapareçam. E por aí fora.
Além de tudo isto, sem independência, as nações tendem a agarrar-se aos aspectos étnico, linguístico e exclusivo de cada povo. Independentes, podem ser mais abertas, integradoras, descomplexadas, livres. Afinal, a independência é só isso: liberdade. Aqui como lá.
*Cf. The Economist desta semana, p. 40.
Rapidinhas
Bona nit IV
Bona tarda!
Mais língua
Em relação à língua e à norma, há três atitudes fundamentais:
1) Podemos adoptar um quase "platonismo linguístico", considerando que há uma forma perfeita de falar e escrever, um Português mítico, que pode ser entrevisto (apenas isso) nos grandes clássicos.
2) Podemos cair, por outro lado, na defesa da inutilidade de qualquer norma, disfarçando essa preguiça de "análise linguística".
3) Ou podemos ter trabalho e aprender uma norma que não tolha a criatividade e evolução da língua. Esta aprendizagem sempre foi e só pode ser fundada, em primeiro lugar (que não único) no estudo da literatura, o lugar onde a norma e a transgressão "dançam" de forma mais produtiva.
Parece que não, mas isto tem tudo a ver com a TELBS.
Além de tudo isto, há que não esquecer que cada um usa e abusa da norma ou da transgressão de forma diferente em diferentes contextos. Uma injustiça fatal é avaliar o uso da língua de alguém tendo como base a norma (não) utilizada num contexto onde não o devia ou não podia ser.
Liberal ou conservador
Para um conservadorismo com o qual me identifico, veja-se aqui.
Quanto às três monarquias, são elas: a Portuguesa, a Espanhola e a Catalã (ou seja, Aragonesa). Por ironias do destino, as duas últimas teriam o mesmo rei (Juan Carlos / Joan Carles), mas isso não obsta nada, bem pelo contrário, à total e completa independência da Catalunha.
Bona nit II
Dans un grand lit carré orné de toile blanche.
Aux quatre coins du lit un bouquet de pervenches.
Dans le mitan du lit la rivière est profonde.
Tous les chevaux du roi pourraient y boire ensemble.
Et nous y dormirions jusqu'à la fin du monde.
Língua discutida
Exacto! (O meu problema é outro: achar-se que certas opções normativas revelam a superioridade de uns sobre os outros. Ou que os malabarismos, mesmo quando apoiados num conhecimento profundo das regras, são sempre negativos. Ou seja, o erro está em congelar a língua.)
Apontamentos sobre o Radicalismo II
Gostos não se discutem
- Ciência;
- Razão;
- Literatura;
- Humanidade;
- Democracia;
- Civilização Ocidental;
- Arte;
- Mulher;
- Catalunha.
Entre outros.
Apontamentos sobre o Radicalismo I
Pedro Norton e os Jovens
Mas pronto, tirando as tiradas anti-jovens, continua a ser o meu cronista preferido da Visão.
Separatismos
Agora, uma experiência mental: em 1630, uma das principais empresas de sondagens da época decide sondar todos os espanhóis (incluindo portugueses, portanto) sobre se Portugal é uma Nação. A decisão fica tomada: não é! (Afinal, só uma pequena região se pronunciou a favor de Portugal como nação...)
Elogio do Parque das Nações
Com todos os defeitos que existem no projecto (que raros destriçam, ficando tudo por um muito fino "aquilo não presta"), andar a criticá-lo à toa e a compará-lo à Reboleira não é lucidez: é pessimismo cego e doentio. O bom seria ver o que se fez bem e o que se fez mal e discutir e não deitar abaixo uma das poucas coisas que o resto do mundo reconhece ter realmente sido bem feita pelos portugueses (não a Expo, mas o projecto urbano...).
Bona nit!
'Sentido Estético'
Eu: Admitamos que tens razão. Quem define esse nível de cultura?
Ele: Ora, é fácil: pessoas como eu, pessoas com sentido estético.
Eu: E se eu não concordar com o teu sentido estético?
Ele: É porque não o tens.
Eu: E se os outros, os que não o têm, não gostassem do arranjinho?
Ele: Todas as revoluções têm as suas vítimas. O que não posso é ser obrigado a conviver com o mau-gosto e a falta de beleza dos outros. Isso não.
O que lhe devo oferecer no Natal?
a) Um disco da Ágata.
b) Um manual de guerrilha.
c) Nada, porque o Natal é um exemplo de mau-gosto.
Provocações Separatistas
Liberal e conservador
Sim, gosto do Ocidente onde depravados e escuteiros são amigos e, as mais das vezes, a mesma pessoa.
A ler: Pedro Mexia.
Discutir a língua
1) Pior do que os erros, é o sentimento de superioridade absurdo de alguns. Há umas semanas li um artigo num jornal local (dos Olivais, salvo erro) onde se invectivava contra quem usa "terramoto" (em vez do correctíssimo "terremoto"), mostrando como tais pessoas sofriam de um incurável defeito moral (o artigo prosseguia demonstrando como Fernando Pessoa era um poeta medíocre por, alegadamente, inventar palavras).
2) Pegar na variedade e no uso para justificar a ignorância é sintoma de preguiça. Mas se quisermos agradar a todos, vamos enredar-nos em discussões infindáveis sobre a forma que nos vão deixar a milhas do conteúdo. Por exemplo, já tive portugueses de pergaminhos linguísticos impecáveis a corrigirem-me de forma totalmente contraditória sobre quando usar "por que" e quando usar "porque". Isto sem ligarem pevas (estarei a fugir à norma?) ao que estava escrito no texto em questão.
3) Ler, ler, ler e descontrair parece-me a solução. E não achar que os outros, por não usarem exactamente as mesmas opções que nós (por exemplo, usar "e" no início de frase), estão necessariamente a falar mal.
Agora um pouco de linguística à la Bakhtin: uma língua é um campo de tensões centrífugas e centrípetas.
Tenho dito.
P.S. Imagine-se agora isto aplicado a um país onde as variações têm cargas políticas inimagináveis e terão uma ideia do que é falar catalão na Catalunha.
Indefinições
Nostalgias
Claro que também sofro do mesmo mal: tenho nostalgia dum país que nem sequer conheci. Mas isto são outras histórias.
Os meus livros I
Português: Alexandra Alpha, José Cardoso Pires
Catalão: Mecanoscrit del segon origen, Manuel de Pedrolo
Espanhol: Corazón tan blanco, Javier Marías
Filosofia
The Open Society and its Enemies, Karl Popper
Autobiografia
You've Had Your Time, Anthony Burgess
Nostalgias
Claro que também sofro do mesmo mal: tenho nostalgia dum país que nem sequer conheci. Mas isto são outras histórias.
Bon dia I
- Manuel de Pedrolo, Mecanoscrit del segon origen
Totalitarismo
Liberal
Gostava de poder dizer que quero uma sociedade mais segura, fraterna, igual. Mas eu quero mesmo é uma sociedade mais livre. E que cada um seja o fraterno que quiser.
Independentista
O que eu quero, sem pejos nem meias-palavras, é a Restauração da Independência da Catalunha.
Quero a restauração da Coroa de Aragão na pessoa de Joan Carles I.
Quero três monarquias na Península, sem pudores nem espartilhos.
Quero liberdade.
O que sou
Lusófilo. Talvez só por não ser português sei amar este país. Com raiva e muito amor.
Curioso. O que eu gosto é de ver os outros, as conversas, as ideias, os erros, as vitórias, as perversões, as comoções, a beleza. O que eu gosto é de ver o mundo. O que eu gosto é de saber, olhar, ouvir e depois sujar-me nos cafés e nas camas.
































