Sexo anal, liberdade e outros que tais...

Até tenho pena de tirar aquele sorriso do cimo do blogue, mas temos de avançar...

Quanto ao problema gravíssimo de saúde pública que é o sexo anal (ó meu Deus!), os riscos, conheço-os. Há muito. E depois? Não os posso correr? Temos de começar a assutar toda a gente e a obrigar toda a gente a pôr uma tatuagem no rabinho a dizer: "Sodomizar mata"?

Mas é tão giro, realmente, como certos espíritos puritanos só o são com certas coisas bem delineadas: tabaco, etc.

Quais as profissões que nenhuma sociedade dispensa?

1. Padres
2. Prostitutas
3. Tradutores
4. ...


Picasso I

Seleccions catalanes! ou como se deve ser separatista e anti-nacionalista

Sempre tive tendências separatistas, como bem se sabe. Continuo a defender que, ao longo da história, o separatismo foi bem mais pacífico do que o unionismo forçado de qualquer espécie (malgré ETA e outros que tais, que são mais uma espécie de politicamente correcto violento, como tendem a ser todos os movimentos "politicamente correctos").

Mas o meu separatismo não é igual aos outros. Sou pouco nacionalista, apesar de catalão. Aliás, os meus sentimentos são um pouco difusos, neste campo.

O João Miranda, há uns tempos, defendeu o "estado neutro", mesmo em relação às nações. Acho que gosto da noção, apesar das antipatias que provocou. Gostava que Espanha fosse neutra. Que deixasse que as várias "nações" ou "noções de nação" que existem por lá se libertassem dum patriotismo obrigatório. A pessoa devia poder sentir-se castelhana/espanhola, castelhana, catalã/espanhola, catalão, apátrida, portuguesa, curda, se quisesse. O estado seria neutro. Cada "nação" faria o que podia, com o suporte financeiro e humano dos seus membros, que o seriam se quisessem e quando quisessem.

Assim, poderiam surgir selecções catalãs. Selecções bascas. Selecções espanholas. Selecções de La Rioja. O que se quisesse.

O importante é a liberdade e o tremorzinho na pele a ouvir o hino, mesmo que ridículo, devia ser permitido a todos, não apenas aos que têm a nação certa em cada estado.

Os verdadeiros horrores de Portugal?

Isto destes verdeiros horrores tem muito que se lhe diga. Reparem, à primeira vista, estão a "castigar" a urbanização selvagem, mas acabam por, sobranceiros, determinar o que é bom gosto e o que não é. Não digo que não se possa avaliar cada uma destas obras negativamente. Mas algumas só cá estão para se armarem ao chico-esperto: "reparem como os outros são tão totós e nós é que sabemos o que é bom". Tudo relacionado com a completa inépcia portuguesa no que toca a saber o que é uma cidade e o que é viver em cidade. Mas a isto voltaremos.

Adenda:

"Esta votação tem um carácter lúdico e não visa senão suscitar uma discussão sobre a arquitectura e a qualidade da paisagem urbana e da vida nas nossas cidades." (José Vítor Malheiros, Público)

Discutamos, pois, a arquitectura e a qualidade da paisagem.

Pergunta sincera

Porque é que uma das piores acusações que se pode fazer a uma pessoa é que está a defender os seus interesses?

Até pode fazer mal...

Depois do riso...


A liberdade de cada um implica o corpo todo, incluindo vias respiratórias, reprodutórias e excretórias. É isso que importa.

Até pode fazer mal. Até me podem provar que o sexo anal provoca meio milhão de mortes por ano, só em Portugal. Se assim for, fico contente pela liberdade de costumes que por aí anda (o comportamento que mais mortes provoca por ano continua a ser "viver", tout court).

Como em tudo, a responsabilidade é de quem o faz, ponto final. Se quisermos dar mais importância à discussão do que ela tem, até podemos argumentar que o sexo, em geral, tem "alguns" perigos. Mas esses comportamentos são da (ir)responsabilidade de cada um.

O que este post quer é controlar a vidinha dos outros, quer que ninguém faça "aquilo" porque há gente que tem nojo, que não aguenta pensar que a humanidade não se rege pelos seus estritos critérios do que é bom, do que é belo, do que faz bem.

Já agora, o que é o poderoso e maléfico lobby gay defende, segundo os defensores da pureza higiénica dos rabos dos senhores e senhoras deste país? A conversão dos outros à gayice? A morte por arrebentamento das donzelas e dos donzéis portugueses?

Temos mesmo de ter cuidado com os comentários alheios?

"Depois não se queixem."

in Abrupto

Atentem na imagem do post anterior

Digo isto com a mais pura das curiosidades científicas: o que é que nos faz, realmente, a nós, homens, gostar tanto destas curvas (e não outras), destas sombras, desta forma de olhar? O quê? O quê? Se fosse francês, diria o "indisible", ou algo do género, mas isto são coisas mais a sul. É que é "dizível", "fazível", o que se quiser, só não é explicável, pelo menos sem ser por gestos.

Ai a Liberdade, a Liberdade

Gostava de dar três urras à liberdade: a liberdade de desaparecer, reaparecer, não ser quem parecemos, sermos exactamente o que parecemos, fugir, ficar, comer à fartazana, fazer greves de fome, dizer o que nos apetece, dizer o que os outros querem que diguemos, vestir-se como os outros, andar nu numa igreja, ser radical, ser conformista... Ai a intensa e perigosa e desconcertante variedade do mundo...

E eu, Andreu, quem serei?

A liberdade de ver, claro... De tentar, de não conseguir, de às vezes conseguir, de sonhar.


Blasfémias

A reacção intempestiva dos outros blasfemos às postas provocadoras e anti-semitas à antiga de Pedro Arroja só mostra que o liberalismo, mesmo o neo- (para mal dos pecados dos correctinhos), é onde mora a verdadeira democracia e a verdadeira liberdade. As reacções de muita esquerda soa a: "ser radical e provocador, tudo bem, a não ser que sejam os outros".

Onde se come melhor? Em "Espanha", claro!


Qual é o país onde se come melhor? Em "Espanha", claro. (E perdoem-me as aspas muito nacionalistas catalãs, porque, à falta de independência do meu país, a "Espanha" de que todos falamos inclui a minha terra, e lá também se come muito bem, como todos devíamos saber.)

Reparem: não tenho qualquer simpatia especial por Espanha. Gostava até de partilhar a certeza parva de muitos portugueses de que em Espanha se come pessimamente. Mas não posso: qualquer pessoa que investigue um pouco mais para lá dos snack-bars ou estações de serviço e queira realmente ser surpreendida, sabe que em Espanha se come muito bem; que os franceses ganhariam em imitar os espanhóis; que nós, neste campeonato, nunca venceremos nem os oitavos-de-final; que Espanha, nisto, está noutra galáxia. (E olhem que eu deliro com a cozinha portuguesa. Mas uma coisa é Almada Negreiros, outra coisa é Dalí.)

Então porque há esta ideia portuguesa de que em Espanha se come mal, mesmo entre gente que já comeu muitas vezes por terras vizinhas? Pela mesma razão por que muitos estrangeiros que nos conhecem não sabem realmente ver para lá das ideias que tinham quando cá chegaram: é diferença entre confirmar e descobrir: há quem viaje para confirmar, há quem viaje para descobrir e para se esforçar um pouco para lá do óbvio.

É por isso que, em Portugal, não se conhece a melhor cozinha do mundo. Será que só cá ninguém ouviu falar de Ferran Adrià (para só falar do óbvio e já batido "melhor cozinheiro do mundo")?

Lições de vida

Sabemos tantos clichés que nos esquecemos que por vezes são verdade.

O que realmente nos divide

Esquerda ou direita, nacionais ou estrangeiros, homens ou mulheres, inteligentes ou estúpidos: tudo divisões válidas, mas muito ambíguas.

O que realmente nos divide é outra coisa: termos o mundo arrumadinho e as certezas perfeitas ou ficarmos com a certeza muito amarga de que as certezas têm de ser provisórias para podermos ser humanos.

Aqueles que têm a certeza de que não há certezas ou verdade são do primeiro grupo, claro.

Para quê?

Olho para a Time em que todos fomos declarados Pessoa do Ano e penso: com tantos milhões de vídeos, blogues, podcasts, etc., etc., para que serve isto? Para que serve falarmos? As novidades estão sempre a três cliques de distância, nada do que digo não foi dito já por um catalão, português, monárquico, liberal que há-de haver nalgum lado da blogoesfera. Para mais, enquanto os portugueses ainda sentem a blogoesfera como novidade e coisa de gente muito à frente, o resto do mundo já anda a pensar no próximo passo depois dos videoblogs (e onde já estarão os podcasts...).

Mas enfim, tudo isto, no fundo, é mais liberdade, e é isso que quero.

E já agora quero ainda mais tradições cívicas, rituais mínimos mas sólidos, monarquias democráticas, pequenos gestos partilhados, nações fortes, e muita liberdade nos interstícios de tudo isto.

Ditaduras

O fascismo é a obsessão pelo Passado e o comunismo a obsessão pelo Futuro.

Por outras palavras: nos regimes fascistas, prende-nos a tentativa desesperada de escapar à degradação dum Passado ideal; nos regimes comunistas, prende-nos a inescapável marcha em direcção ao Futuro que canta.

Entretanto, vamos libertando o presente, no meio das vozes que não são deste tempo.


Tapiès VI

Generalidades

O que diz o "senso comum" sobre educação: é preciso especializar cada vez mais as pessoas, prepará-las melhor para o emprego futuro.

Assim: disciplinas como a Filosofia são postas de parte.

Resultado: cada vez mais ficaremos extremamente bem preparados para uma função específica, mas muito pouco flexíveis, sem capacidade para resolver problemas, sem vontade de pensar, preparados apenas para cumprir tarefas.

Sintoma: licenciados no desemprego, preparadíssimos para certas coisas, incapazes para tudo o resto.

Solução: uma base sólida de formação geral e uma formação específica que não seja castradora. E, já agora, um pouco de inteligência e curiosidade da parte de cada um.

As coisas realmente boas

É engraçado como as coisas realmente interessantes, úteis e concretas são consideradas fora de moda, frívolas, demasiado abstractas ou mesmo chatas (sendo que o maior ou menor grau de "chatice" é o único critério com que muita gente avalia quase tudo). Falo da filosofia, da literatura, da investigação teórica em ciência, entre outras parvoeiras do género.

Mas acho também curioso e quase absurdo a forma beata e muito séria como alguns tentam impor a literatura, filosofia, &c., a todos os outros, em jeito de iluminação religiosa ou algo do género. Gostar ou não de literatura, perceber ou não de filosofia, entender ou não a importância da ciência é, acima de tudo, uma questão de liberdade.

Ainda mais curioso é a forma como os outros, os que acham "desinteressante" tudo isto, não percebem que perdem imenso e que as desvantagens são todas deles. Além disso, é pena não perceberem que a filosofia (certa filosofia, claro), por exemplo, foi uma das formas como se chegou às precárias liberdades que temos hoje. Leia-se Popper, por exemplo: está lá a liberdade, os inimigos da mesma, a ciência, a democracia, etc., etc. Mas, claro, quem gosta de filosofia, supostamente, não percebe nada do que é a vida.

Paradoxo dos paradoxos: eu, que gosto de filosofia, de literatura, de ciência, compreendo também, por causa disso mesmo, que não sou realmente melhor dos outros por causa disso. Simplesmente, a minha vida, sem isso, era outra coisa. Menos minha. Menos boa.

A dificuldade do liberalismo

Será que um bom liberal deve aceitar que se digam alarvidades como aqui ou aqui? Será que alguma forma de censura seria positiva?

Resposta: a pergunta nem se coloca! Isto e isto, apesar de disparates, são espaços de liberdade, tal como qualquer site de pornografia ou de negação do Holocausto (já agora, que raio de ideia é essa de proibir o negacionismo?

Mas, em relação a tudo isto, há que dizer que mais importante do que a liberdade deles, é a minha liberdade de dizer que são "alarvidades" (com a possível excepção da pornografia).

O meu ditador é melhor do que o teu!

O giro é que todos andamos a tentar comparar ditadores: "sim, o Pinochet era mau, mas o vosso Fidel é tão mau ou pior e gostam na mesma dele"; "sim, o Fidel não é flor que se cheire, mas o Pinochet é que era mesmo mau!" Depois, com aquele olhar "ah, já te apanhei" todos dizemos que os outros andam a desculpar ditadores só porque são do campo "certo".

Lembro-me de ler que Cardoso Pires (homem de pergaminhos indubitavelmente de esquerda) chocou alguns amigos ao assinar um abaixo-assinado contra a prisão de dissidentes soviéticos, poucos meses depois do 25 de Abril (crime de lesa-Utopia!). A resposta dele (penso que a Maria Lúcia Lepecki) foi algo do género: "mas só assim posso assinar abaixo-assinados contra o Pinochet!" Isto mostra duas coisas: é natural que os ditadores da nossa zona sejam mais simpáticos (Cardoso Pires, no fundo, assanhava-se mais facilmente contra Pinochet). Mas, acima dessa simpatia quase irracional, há que ser superior e lutar contra tudo o que vá contra a nossa terrível liberdade (Cardoso Pires sabia que a coisa era mais complexa que a simples divisão esquerda-direita).

(Cardoso Pires foi dos poucos esquerdistas que sempre foram, sem vacilar, a favor de toda e qualquer liberdade. Que pena não ser monárquico, liberal, etc., etc. Mas pelo menos era libertino dos velhos, não se levava demasiado a sério e era boa gente.)

Voltei, voltei...


Directamente da Catalunha, cá estou eu de novo...


Pronto para mais!


E agora, algo completamente diferente
















I bona nit!

Sou Separatista porque gostava de não ser Nacionalista

Na área dos separatismos, a coisa anda animada: o Quebeque viu o Parlamento canadiano reconhecer-lhe o carácter (óbvio) de Nação; a Escócia começa a pensar seriamente em ser independente (segundo sondagens recentes, aproximadamente 52% dos escoceses e 59% (!) dos ingleses querem a independência da Escócia*); a Catalunha lá aprovou um abstruso Estatuto quase socialista (no pior sentido do termo) que afirma que a maioria do Parlamento acha que a Catalunha é uma Nação (que voltas a língua dá para não dizer certas coisas...).

Pois, apesar de muitos acharem que isto mostra o ressurgir dos nacionalismos, dos sectarismos, dos ismos em geral, para mim (e esqueçam por momentos que sou catalão), é bom sinal: quanto mais separatismo, menos nacionalismo. Enquanto português (que também o sou), posso afirmar-me pouco nacionalista ou nada nacionalista e continuar a falar português, a vibrar com a Selecção Portuguesa, a cantar o hino, a defender a independência do país sem me acusarem de perigoso radical; enquanto catalão, o caso muda completamente de figura: se o quero ser (e não é uma questão de querer ser, no meu caso), tenho de ser profundamente nacionalista e, consequentemente, mal visto.

Ou seja, quero a independência da Catalunha também para não ter de estar constantemente a dizer que sou catalão. Quero a independência da Escócia, para que as tensões crescentes entre ingleses e escoceses sobre as transferências monetárias desapareçam. E por aí fora.

Além de tudo isto, sem independência, as nações tendem a agarrar-se aos aspectos étnico, linguístico e exclusivo de cada povo. Independentes, podem ser mais abertas, integradoras, descomplexadas, livres. Afinal, a independência é só isso: liberdade. Aqui como lá.


*Cf. The Economist desta semana, p. 40.

Rapidinhas

Quando os dias são complicados, torna-se complicado manter o ritmo, mas também disso se fazem os blogues, de arranques e respirações, entre outros movimentos corporais.

Bona nit IV

Os idealismos de bandeirinhas, de patronímicos e ortodoxias celestiais opõem os homens uns aos outros, mas o materialismo do gozo e da piedade pelos corpos aparenta-os universalmente.
- Fernando Savater


A beleza é um mistério

Outros poisos

Agora, também no Geração Rasca.

Bona tarda!

Com tanto para fazer e tanta vontade de escrever, só me dá para dizer um breve Bona Tarda para "começar" o dia "livre e catalão".
Tapiès V

Mais língua

Para continuar.

Em relação à língua e à norma, há três atitudes fundamentais:

1) Podemos adoptar um quase "platonismo linguístico", considerando que há uma forma perfeita de falar e escrever, um Português mítico, que pode ser entrevisto (apenas isso) nos grandes clássicos.

2) Podemos cair, por outro lado, na defesa da inutilidade de qualquer norma, disfarçando essa preguiça de "análise linguística".

3) Ou podemos ter trabalho e aprender uma norma que não tolha a criatividade e evolução da língua. Esta aprendizagem sempre foi e só pode ser fundada, em primeiro lugar (que não único) no estudo da literatura, o lugar onde a norma e a transgressão "dançam" de forma mais produtiva.

Parece que não, mas isto tem tudo a ver com a TELBS.

Além de tudo isto, há que não esquecer que cada um usa e abusa da norma ou da transgressão de forma diferente em diferentes contextos. Uma injustiça fatal é avaliar o uso da língua de alguém tendo como base a norma (não) utilizada num contexto onde não o devia ou não podia ser.
Resposta de Pedro Norton, aqui.

Liberal ou conservador

Na crítica simpática ao Livre e Catalão (que aproveito para agradecer), C. Teixeira pergunta se serei liberal ou conservador. Pois, clar i català: sou liberal, no sentido mais amplo e menos ambíguo do termo, ou seja, só sou conservador no que toca a conservar todas as liberdades já ganhas (e só conservador contra certo "progressismo" que é o velho totalitarismo, nem sequer disfarçado). Ora, isto distingue-se muito de certo tipo de conservadorismo em que as liberdades individuais se submetem sempre ao julgamento de determinada moral. Pode não parecer, mas ser liberal é extremamente complicado: implica, por exemplo, aceitar a existência de realidades com as quais não concordamos, nem sequer "toleramos" (no sentido politicamente correcto do termo), mas com as quais temos de viver, porque os outros têm a sua liberdade.

Para um conservadorismo com o qual me identifico, veja-se aqui.

Quanto às três monarquias, são elas: a Portuguesa, a Espanhola e a Catalã (ou seja, Aragonesa). Por ironias do destino, as duas últimas teriam o mesmo rei (Juan Carlos / Joan Carles), mas isso não obsta nada, bem pelo contrário, à total e completa independência da Catalunha.
Miró II

Bon dia III

Quando o burocrata trabalha é pior do que quando destrabalha...

- Alexandre O'Neill

Bona nit II

La belle si tu voulais nous dormirions ensemble.
Dans un grand lit carré
orné de toile blanche.
Aux quatre coins du lit un bouquet de pervenches.
Dans le mitan du lit l
a rivière est profonde.
Tous les chevaux du roi pourraient y boire ensemble.
Et nous y dormirions jusqu'à la fin du monde.
- Anónimo francês

Língua discutida

Francisco José Viegas: "Defendo a norma, sou pela norma, gosto de regras -- para poder não as respeitar quando quiser. Não se podem fazer malabarismos sem conhecer essas regras essenciais; saber o que é um soneto, a métrica, a rima; saber que é incorrecto escrever e dizer «estivestes» ou «fizestes»."

Exacto! (O meu problema é outro: achar-se que certas opções normativas revelam a superioridade de uns sobre os outros. Ou que os malabarismos, mesmo quando apoiados num conhecimento profundo das regras, são sempre negativos. Ou seja, o erro está em congelar a língua.)

Apontamentos sobre o Radicalismo II

As ideias radicais têm um sistema de auto-protecção: é óbvio que os outros não as compreendem, porque não partilham a fé, têm interesses escondidos, estão noutro plano. É também evidente que "os outros" vão acusar os radicais de serem... radicais. Por isso, cada conversa racional com um radical é só uma forma de confirmar na sua mente que o resto do mundo está errado e ele está certo.

O amor das coisas boas IV

Jogos

Tapiès IV

Obsessão Fatal

Cidades II

Gostos não se discutem

Sou pela:
  • Ciência;
  • Razão;
  • Literatura;
  • Humanidade;
  • Democracia;
  • Civilização Ocidental;
  • Arte;
  • Mulher;
  • Catalunha.

Entre outros.

Castidades

Dalí II

Apontamentos sobre o Radicalismo I

Como nasce um radical? Quando percebe algo que não compreendia antes e esse algo parece explicar, de uma só penada, uma grande parte do seu mundo. Ou seja, descobre um atalho para uma visão simples do mundo. A partir de aí, é sempre a descer: as decisões tornam-se fáceis, torna-se fácil julgar os outros, torna-se fácil viver (porque há algo por trás de tudo que justifica o sofrimento, que explica o desprezo do mundo e permite suportar até os desvios ao Grande Plano).

Pedro Norton e os Jovens

Pedro Norton escreve bem. É um cronista realmente liberal, que foge sempre às opiniões formatadas. Mas quando se trata da Juventude (esse bicho) ou da Educação (esse mastronço), é facílimo adivinhar o que vem aí: não sabe do que fala e presume sempre que os jovenzinhos são umas bestas (por estas exactas palavras). Nem sentido de humor lhes reconhece, muito menos capacidade para gozar com a sua própria linguagem, utilizando material felino.

Mas pronto, tirando as tiradas anti-jovens, continua a ser o meu cronista preferido da Visão.

Separatismos

Hoje, o Público faz questão de salientar que a nova qualificação do Quebeque como nação é recusada por uma larga maioria dos canadianos. Depois, à laia de pormenor, nota que a única região onde tal não acontece é... no Quebeque. Que surpresa!

Agora, uma experiência mental: em 1630, uma das principais empresas de sondagens da época decide sondar todos os espanhóis (incluindo portugueses, portanto) sobre se Portugal é uma Nação. A decisão fica tomada: não é! (Afinal, só uma pequena região se pronunciou a favor de Portugal como nação...)

Cidades I


Elogio do Parque das Nações

Há pouco, numa conversa de café, lá ouvi de novo invectivar contra o "excesso de construção" do Parque das Nações. Isto irrita-me, por várias razões. Sim, é verdade que aquilo é uma espécie de galinha dos ovos de ouro para as construtoras: mas preferiam que a Expo '98 tivesse sido paga com o dinheiro dos contribuintes? Depois, as criticas chegam ao ponto de dizer que aquilo parece a Reboleira, mas com mais espaço entre os prédios. Ora, aquele é o espaço da cidade com mais espaços verdes; quase todos os prédios são incomparavelmente mais bem feitos e originais que no resto da cidade; o equilíbrio entre espaços de lazer, residenciais e empresariais é um sonho para qual outro bairro do país. Além disso, às críticas subjaz uma atitude subdesenvolvida para com a cidade: muitos acham que quanto menos concentrada, melhor a cidade. Ou seja, preferiam mesmo é viver numa aldeia. A cidade deve ser concentrada, para evitar excesso de trânsito, deve ter mais prédios em altura, para descer os preços das casas (o facto é que, com muito mais qualidade, os preços na Expo não são assim tão mais elevados que no resto da cidade) e trazer pessoas para o centro, deve incentivar o uso do espaço público, como acontece na antiga Expo.

Com todos os defeitos que existem no projecto (que raros destriçam, ficando tudo por um muito fino "aquilo não presta"), andar a criticá-lo à toa e a compará-lo à Reboleira não é lucidez: é pessimismo cego e doentio. O bom seria ver o que se fez bem e o que se fez mal e discutir e não deitar abaixo uma das poucas coisas que o resto do mundo reconhece ter realmente sido bem feita pelos portugueses (não a Expo, mas o projecto urbano...).

Para os catalanófilos por aí escondidos

www.llibres.cat

Bon Nadal!

Bon dia II (muito tarde...)

Bona nit!

E agora o vento e os bons amigos, conversa e algum álcool, para que um catalão lisboeta se sinta realmente feliz. Até amanhã!


O amor das coisas boas III

Uma musa é uma musa é uma musa

Dúvidas eternas

Palestino ou palestiniano?

'Sentido Estético'

Tenho um amigo meu (esquerda caviar) que defende que ninguém nasce com direitos (nem negativos nem positivos) e que só quem chega a um certo nível de cultura devia ter direito a votar e a procriar.
Eu: Admitamos que tens razão. Quem define esse nível de cultura?
Ele: Ora, é fácil: pessoas como eu, pessoas com sentido estético.
Eu: E se eu não concordar com o teu sentido estético?
Ele: É porque não o tens.
Eu: E se os outros, os que não o têm, não gostassem do arranjinho?
Ele: Todas as revoluções têm as suas vítimas. O que não posso é ser obrigado a conviver com o mau-gosto e a falta de beleza dos outros. Isso não.

O que lhe devo oferecer no Natal?
a) Um disco da Ágata.
b) Um manual de guerrilha.
c) Nada, porque o Natal é um exemplo de mau-gosto.
Tapiès III

Provocações Separatistas

Praticamente todas as guerras ditas "separatistas" foram provocadas por quem quer unir e não por quem quer separar. Seguir o seu próprio caminho devia ser um direito de qualquer povo (seja qual for a definição), muito superior ao direito a conservar umas quaisquer fronteiras.

Liberal e conservador

Sou liberal e conservador porque quero conservar todas as liberdades do Ocidente (e ajuntar-lhes umas quantas mais). Por isso acho "desocidental" todo o tipo de conservadorismo à la César das Neves (e ele, provavelmente, concorda comigo, tendo em conta que valoriza negativamente a decadência do Ocidente).

Sim, gosto do Ocidente onde depravados e escuteiros são amigos e, as mais das vezes, a mesma pessoa.

A ler: Pedro Mexia.

Discutir a língua

Pendurado entre duas línguas com problemas totalmente diferentes, achei interessantíssimo o post de Francisco José Viegas Assim é fácil.

1) Pior do que os erros, é o sentimento de superioridade absurdo de alguns. Há umas semanas li um artigo num jornal local (dos Olivais, salvo erro) onde se invectivava contra quem usa "terramoto" (em vez do correctíssimo "terremoto"), mostrando como tais pessoas sofriam de um incurável defeito moral (o artigo prosseguia demonstrando como Fernando Pessoa era um poeta medíocre por, alegadamente, inventar palavras).

2) Pegar na variedade e no uso para justificar a ignorância é sintoma de preguiça. Mas se quisermos agradar a todos, vamos enredar-nos em discussões infindáveis sobre a forma que nos vão deixar a milhas do conteúdo. Por exemplo, já tive portugueses de pergaminhos linguísticos impecáveis a corrigirem-me de forma totalmente contraditória sobre quando usar "por que" e quando usar "porque". Isto sem ligarem pevas (estarei a fugir à norma?) ao que estava escrito no texto em questão.

3) Ler, ler, ler e descontrair parece-me a solução. E não achar que os outros, por não usarem exactamente as mesmas opções que nós (por exemplo, usar "e" no início de frase), estão necessariamente a falar mal.

Agora um pouco de linguística à la Bakhtin: uma língua é um campo de tensões centrífugas e centrípetas.

Tenho dito.

P.S. Imagine-se agora isto aplicado a um país onde as variações têm cargas políticas inimagináveis e terão uma ideia do que é falar catalão na Catalunha.
Tapiès II

Verdades I

A futilidade tem muito má fama, mas é o melhor sinal de inteligência.

Indefinições

O que hei-de fazer? Pôr no blogroll só o que leio ou tudo o que encontro e gostaria de ler?

Nostalgias

Em pessoas inteligentes como Pacheco Pereira e Eduardo Pitta, a nostalgia é comovente e enganadora: apresenta-lhes nitida a imagem desse tempo de cafés e frustrações, mas fá-los cegar perante os novos cafés, as novas conversas, a nova cidade, bem melhor e mais dinâmica do que a que descrevem.

Claro que também sofro do mesmo mal: tenho nostalgia dum país que nem sequer conheci. Mas isto são outras histórias.

Os meus livros I

Literatura
Português: Alexandra Alpha, José Cardoso Pires
Catalão: Mecanoscrit del segon origen, Manuel de Pedrolo
Espanhol: Corazón tan blanco, Javier Marías

Filosofia
The Open Society and its Enemies, Karl Popper

Autobiografia
You've Had Your Time, Anthony Burgess

Nostalgias

Em pessoas inteligentes como Pacheco Pereira e Eduardo Pita , a nostalgia é comovente e enganadora: apresenta-lhes nítida a imagem desse tempo de cafés e frustrações, mas fá-los cegar perante os novos cafés, as novas conversas, a nova cidade, bem melhor e mais dinâmica do que a que descrevem.

Claro que também sofro do mesmo mal: tenho nostalgia dum país que nem sequer conheci. Mas isto são outras histórias.

Bon dia I

"L'Alba una noia de catorze anys, verge i bruna..."

- Manuel de Pedrolo, Mecanoscrit del segon origen

Boa noite I


Totalitarismo

Todas as formas de totalitarismo baseiam-se em três eixos: na simplicidade, no medo, na força.

Simplicidade. O fascismo, o comunismo, o islamismo radical, o catolicismo saloio baseiam-se, no fundo, em ideias simples, traves sólidas onde é fácil apoiar a nossa visão do mundo e que nos dão, num instante, respostas prontas para cada passo da vida.


Medo. Obviamente, quando se vive sob o totalitarismo, tem-se medo da autoridade, mas tem-se acima de tudo medo dos papões com que essa autoridade nos submete.


Força. A força bruta ou a força das mentiras mil vezes repetidas.


Mas não é só nas sociedades totalitárias que estes três eixos actuam: num grupo de amigos, as discussões, opiniões e relações de poder baseiam-se no que é simples, no que mete medo aos mais fracos (de serem excluídos, ridicularizados, etc.) e na força dos "alpha males". Só assim se explica a dominação cultural da esquerda num país razoavelmente inteligente: não se discute, porque é óbvio que as verdades simples do politicamente correcto são indiscutíveis; não se discute, porque quem não é exactamente de esquerda tem medo; não se discute porque a esquerda tem uma suposta força moral que assustava, até há bem pouco tempo, quem pensava diferente e livremente.


Restauração




Dalí I

Liberal

Sou liberal, da velha guarda. Gosto do Ocidente. Gosto do capitalismo. Gosto da democracia liberal. Gosto de Popper. A França faz-me um pouco de urticária. A cultura subsidiada é para abater. A Rivolução é para rir. As monarquias do norte da Europa são boas porque monarquias e porque liberais (não porque sociais-democratas).

Gostava de poder dizer que quero uma sociedade mais segura, fraterna, igual. Mas eu quero mesmo é uma sociedade mais livre. E que cada um seja o fraterno que quiser.

Independentista

Sou arrogantemente burguês, catalão, ainda por cima de direita. Não gosto da autonomia catalã, não gosto deste estatuto socialista (com 200-duzentos-200 artigos), não gosto de Carod Rovira, não gosto dos nacionalismos espanhóis pós-modernos, não gosto desta Espanha ilusória.

O que eu quero, sem pejos nem meias-palavras, é a Restauração da Independência da Catalunha.

Quero a restauração da Coroa de Aragão na pessoa de Joan Carles I.

Quero três monarquias na Península, sem pudores nem espartilhos.

Quero liberdade.

O amor das coisas boas II

É melhor confessar-me desde já. Tenho pelo menos uma perversão sexual identificada: o bündchenismo.




O amor das coisas boas I


O que sou

Catalão. Desde sempre, para sempre. A minha família já era patriota antes de haver Espanha. Se fosse espanhol, era do PP e anti-catalão. Mas os meus avoengos lutaram na Guerra dos Ceifeiros, contra Castela. (Por isso começo este blogue no Primeiro de Dezembro. Em homenagem a este povo que conseguiu o que o meu sempre tentou.)

Lusófilo. Talvez só por não ser português sei amar este país. Com raiva e muito amor.

Curioso. O que eu gosto é de ver os outros, as conversas, as ideias, os erros, as vitórias, as perversões, as comoções, a beleza. O que eu gosto é de ver o mundo. O que eu gosto é de saber, olhar, ouvir e depois sujar-me nos cafés e nas camas.

Livre & Libertino. A liberdade sempre e acima de tudo. Liberdade com responsabilidade ou irresponsabilidade. Liberdade para erros definitivos e vitórias provisórias. Liberdade para tudo.

Monárquico. A beleza e a liberdade só nos deixam uma opção: sacrificar uma família para chefiar o país.
Miró I

Inauguração

No dia da Restauração, um orgulhoso não-espanhol pronuncia-se: estou aqui.

Quem sou

Andreu Vallès, n. Barcelona 19--, m. -- 20--.
Tapiès I